18/04/2010

Nietzsche e a Estética

Segundo dia do Curso de Estética e Política.

Primeiro falou-se de Hegel, o orador pareceu-me interessado em abrir uma compreensão complexa do pensador alemão. Mas teve pouca preocupação com a transmissão da informação, repetiu até à exaustão o bordão "ou seja", foi conceptualmente indeciso no retorno à 3ª Crítica de Kant, pronunciava Hegel à inglesa... Desliguei. Claro que Hegel é importante, mas podemos conversar com ele directamente ou através de comentadores mais explicativos.

Depois, o Professor Nuno Nabais, super-inteligência comunicativa (não é indiferente ser ou não professor), vontade de novamente se "instalar nas suas próprias convicções", mas também pronto, como bom iconoclasta que é, a fazer um pequeno desvio ao estado da arte actual.

Começou por dizer que há uma relação mimética entre Nietzsche e Hegel (Deleuze pesa muito na nossa crença da irredutibilidade entre ambos). Em primeiro lugar os dois dão a primazia à Tragédia na hierarquia das artes, em segundo as obras de arte têm como função conduzir à verdade (nãos sendo no entanto a verdade científica).

Em seguida, na relação entre Nietzsche e Kant, a tese principal da má leitura — que passa muito pela ausência da leitura no original — da 3ª Crítica por parte de Nietzsche. A mistura de Kant e Schopenhauer fez com que Nietzsche lê-se o sublime kantiano como a "coisa em si" e "vontade". O belo como "aparência" e "fenómeno". Se aliarmos a isto a leitura do Beethoven de Wagner (1870), também ele influenciado pelo Die Welt als Wille und Vorstellung, temos a genealogia da primeira obra de Nietzsche: Die Geburt der Tragödie, cujos "conceitos" do dionisíaco e apolíneo mais não são do que a reprodução das teses schopenhauerianas e wagnerianas, embora noutros termos e com um pouco de filologia clássica à mistura.

Mas, em vez de pensarmos que esse influência, sobretudo a de Wagner, desmotivou Nietzsche de realizar uma boa filologia da obra kantiana, e nesse sentido de encenar diferentemente Dioniso e Apolo; encontramos na crítica nietzschiana actual a convicção que a experiência do convívio com o criador de Tristan und Isolde, fez de Nietzsche um caso raro no mundo da arte: alguém que pensa filosoficamente a teoria da arte ter uma ligação profunda com os mecanismos da criação artística.

Nuno Nabais quis realçar 3 teses:

a) Nietzsche regressa a uma metafísica da arte, já que o mundo é ele próprio arte. [neste aspecto discordamos, pelo menos em parte. Penso que a sua metafísica da arte só é válida para O Nascimento da Tragédia, depois, a partir da Gaia Ciência, devemos falar num materialismo artístico]

b) Toda a obra de arte é um sintoma de uma experiência vital. Cada obra de arte é um sintoma de quem a realizou e da época, cultura em que foi realizada. Por isso, Parsifal exemplifica a decadência do seu criador, Wagner, e da sua cultura, Alemã.

c) Até Nietzsche a filosofia da arte ou se centrava no domínio da ontologia da obra, ou da fenomenologia do juízo estético, isto é, das condições de recepção por parte do espectador. Com Nietzsche, pensa-se a arte a partir do pólo da criação, as condições de criação são exclusivamente as condições do criador.

Finalmente, como sobremesa, Nabais afirmou que o novo pensamento da arte de Nietzsche se encontrava nos § 6 e 7 da Genealogia da Moral, livro III. Aí, à condição de um juízo desinteressado para aceder ao belo — Kant — sucede a promessa de felicidade que todo o belo deve trazer, segundo Stendhal. Além disso, o sublime, tão importante no Nascimento da Tragédia, passa agora a ser entendido como condição de acesso ao ideal ascético, isto é, resulta numa espécie de pré-sublimação freudiana. Nos mecanismos delirantes do sublime, ou do dionisíaco, substituímos a vida material pela vida ideal, um objecto desejado mas moralmente desvalorizado — o mundo de baixo —, por um outro pouco desejado mas moralmente super-valorizado — o mundo de cima, o mundo ideal.




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