21 de Nov de 2009

O Fracasso Criativo

Lou Salomé, Paul Rée e Friedrich Nietzsche, 1882

"combien de créations ne sont-elles pas nées de l'expérience d'un échec comme si l'échec en était la condition indispensable."
Pierre Klossowsiki, Nietzsche et le Cercle Vicieux, Paria, Mercure de France, 1969, p.283.

E a criação que nasceu do fracasso, de virilidade e de gregarismo, de Nietzsche em relação a Lou foi Assim Falava Zaratustra. Lou Salomé teria sido a mediadora do mundo dos vivos, das pequenas coisas que nos fazem humanos, não haveria, pois, necessidade de trazer Zaratustra a anunciar o sobre-homem (Übermensch).
Mas Lou preferiu Rée, como mais tarde Rilke ou Freud. Foi sempre ela a decidir quem viria cultivar o seu jardim.

19 de Nov de 2009

Nietzsche em Sils-Maria


Foi em Sils-Maria, Verão de 1881, região dos Alpes Suiços, perto da fronteira italiana, que Nietzsche teve uma das suas grandes revelações: "Eterno Retorno do Mesmo".

No manuscrito decide a altura geológica e psicológica da fulguração: "6000 pés acima do mar e bem para além de todas as coisas humanas!"

Sils-Maria foi um espécie de Olimpo, de resguardo para com as coisas humanas, demasiado humanas.

18 de Nov de 2009

Intensidades


Paul Klee, Rising Sun.

Sabemos hoje, mais por crença ontológica do que por elucidação epistemológica, que a claridade surge sempre dentro de uma escuridão muito mais vasta e essencial que a "funda" (e afunda, num oportuno jogo de palavras).

Esta origem é a complexidade irredutível da vida (sem metafísica). Um excesso indomável que generosamente (por puro dom) deixa codificar um fragmento da sua incomensurabilidade (por exemplo um livro de Filosofia), rapidamente desconstruído pelas forças relacionais que o mudam de lugar, alterando também com isso a gramática significativa que lhe trouxe a ilusão da evidência (ainda no mesmo exemplo: a interpretação dos leitores dar-lhe-á sentidos para além dos do autor ou do próprio texto — se existir tal coisa nesta simplicidade).

Assim, o conceito de liberdade, por exemplo, é a codificação (conjunto de significados actualmente aceitáveis) de uma pequena parcela tanto dos dados da vida (historicidade da vida) como das possibilidades de vida, que no seu conjunto formam uma tal complexidade que pode ser descrita como um caos ou uma escuridão. Por isso, a codificação, tanto semiótica como prática, da liberdade vale apenas no contexto das forças de sentido que actualmente vigoram (e mesmo este "actualmente" deve ser relativisado, a liberdade borgesiana e a sartreriana são encenações bem diferentes).

Puro perspectivismo, relativismo niilista? Talvez. Mas a ser assim, teríamos mais atenção à intensidade que cada fulguração da vida traz. Em vez de nos esgotarmos a descrever, calcular, inventar... viveríamos nos prazeres do intenso e lutaríamos contra tudo o que deprime sem com isso querer elevar.

16 de Nov de 2009

Histriónico do sentido

Francis Bacon, Study from the human body, 1949.

Num projecto de prefácio para Humano, Demasiado Humano redigido em 1886 Nietzsche fala sobre o seu permanente estado de doente. Para superar o pessimismo que daí resultava dizia-se a si mesmo: "amanhã estarei curado: hoje basta-te simular a saúde."

O seu remédio foi o "histrionismo da saúde", como também refere.

Daí estar tantas vezes perto de construir uma teoria da grande saúde ou da vontade de potência, enquanto lugares acima de qualquer niilismo. Foi a obra de um doente crónico a tentar por todos os meios exceder a sua circunstância.

Mutatis mutandis, considero-me um histriónico do sentido, um experimentador excessivo, e por vezes despropositado, de sentidos que atenuem a violência das forças caóticas que me envolvem.

15 de Nov de 2009

Coopetição



Parece que desde a Queda do Muro de Berlim — gosto desta potência conceptual — deixou de haver competição. Aquilo que Fukuyama proclamou imediatamente depois de Novembro de 1889 (o "fim da história" — menos conceito do que ideologia) incarnou na história e as linhas de demarcação entre os diferentes mundo deixaram de usar arame farpado para separar quem, afinal, se quer juntar.

Com isso perdeu-se uma emulação reguladora (quem negará que o comunismo influenciou positivamente o capitalismo, obrigando-o a fazer importantes concessões sociais?), o outro lado que segura o freio da loucura inserto no "tudo é permitido" do caminho único.

Uma das formas de complexificação — e de boa fragilização — dos horizontes é desenvolver mecanismos eficientes de auto-regulação. Mas é muito difícil educar quem detém o poder para a contenção e a viagem até à posição do outro. "Esmagar" deve ser um dos impulsos vitais mais usuais na vontade dos poderosos.

Por isso, é pelo menos necessário manter uma forma menor de competição no jogo internacional. O novo conceito para designar um trabalho conjunto sem anular a rivalidade é o de coopetição. Competição e cooperação menores, deixando viva a ideia do Outro, de outro mundo que posso experimentar se o meu não me satisfizer. É uma espécie de alternância política transportada para a psicologia profunda das massas.


13 de Nov de 2009

Da Redenção





Toda a manhã à procura de uma pequena redenção.

8 de Nov de 2009

O Verdadeiro Sonhador

Segundo John Rajchman (Ligações Deleuze, 2002, n.r. p. 144) um dos lemas de Proust era: "O verdadeiro sonhador é aquele que vai verificar as coisas."

É por isso que À la recherce du temps perdu é um livro que visita o mundo real das relações humanas para verificar as possibilidades tanto do amor como do ódio, da vida como da morte.

A literatura não é, assim, um grande tear de utopias, mas uma casa de detectives perscrutadora dos homens e das coisas para ver como é o mundo, sobretudo, é isso que faz as obras primas, as grandes potências de renovação escondidas ainda no tecido da banalidade.


7 de Nov de 2009

Civilização do Cliché

Tudo foi dito, tudo foi pensado, tudo foi expresso. Morte da Filosofia como da Arte (a ciência não sofre desta angústia porque tem a ingenuídade da juventude — refiro-me à ciência ultra-demonstrativa da contemporaneidade — e a linha de fuga das aplicações tecnológicas).

Na verdade, não sabemos se esgotamos o conjunto finito das experimentações possíveis. Podemos estar ainda no início da nossa viagem especulativa e criativa.

Mas mesmo que tenhamos atingido o último do "melhor dos mundos possíveis", ainda podemos tentar extrair do círculo fechado dos clichés algumas ideias genuínas, experimentando (com conceitos, imagens, sons...) desvios aos significados codificados. Ainda podemos?

6 de Nov de 2009

Livro Manuseado

Há quem prefira livros novos, ainda a cheirar a tinta e cloro. Questão de ser o primeiro a lê-los, de tomar posse primogénita de objectos que, ainda que livros, fazem parte da economia psicológica da propriedade privada.

Prefiro-os manuseados, encontrar marcas de outras interpretações, supor as cosmovisões que antes de mim os acolheram. Esses códigos de recepção pontuarão a minha leitura, mas sem me retirar, mais do que os mecanismos habituais, liberdade hermenêutica.

4 de Nov de 2009

Do amor

“l’amour ne cesse pas de préparer sa propre disparition, de mimer sa rupture.”
(Gilles Deleuze, Proust et les signes, Puf, 1ª ed. 1964)

É sobre a forma como Proust entende o amor, sempre assombrado, necessariamente aliás, pela inveja e pelo ciúme. A isto acrescento, questão de ar do tempo, a erotomania que conduz homens e mulheres de meia-idade a procurar superar o cansaço da monogamia em pequenas experiências de Peter Pan.

Claro que não sou conservador, nem sequer neo-conservador.

2 de Nov de 2009

Da Filosofia em Nietzsche

Que papel ocupa Nietzsche no theatrum philosophicum ocidental? Emérito criador de conceitos, fino negociador de contradições com sentido, polemista consagrado, poeta avassalador, psicólogo turbulento, filólogo iconoclasta... Esteve sempre um passo à frente da modernidade, mesmo durante o idílio de Tribschen.

Em Para Além Bem e Mal, §211, refere-se aos operários da filosofia (philosophischen Arbeiter), cujos modelos são Kant e Hegel, como iluminadores de tudo o que existiu até eles. A filosofia estaria, pois, alienada no espírito da Ave de Minerva, repórter do que aconteceu. Pelo contrário, “os verdadeiros filósofos são comandantes e legisladores” (Die eigentlichen Philosophen aber sind Befehlende und Gesetzgeber). É verdade que não descuram todo o trabalho de pensamento anterior ao deles, mas o passado filosófico só serve como meio, como instrumento para “agarrarem o futuro com uma mão criadora”, para fazerem da sua vontade de verdade uma vontade de potência (Wille zur Wahrheit ist – Wille zur Macht). Para Além Bem e Mal, com o subtítulo “Prelúdio a uma filosofia do futuro” (“Vorspiel einer Philosophie der Zunkunft”) contém muitos fragmentos dedicados à filosofia, da nova e da antiga filosofia: §2, 9, 39, 42, 43, 292. Mas já em Aurora, §544, tinha lançado a suspeita sobre os filósofos recolectores. Por outro lado, A Genealogia da Moral, por exemplo nos livros I e III, §17 e 8 respectivamente, continua a ideia do filósofo legislador, criador mais do que agrimensor, desejoso de experimentar mais do que de esclarecer, de criar do que de representar. Por isso, a ideia de filósofo construtor de experiências de futuro acompanha Friedrich Nietzsche durante grande parte da sua carreira de espírito livre.

Dois receptores complementam-se quando designam a filosofia de Nietzsche, respectivamente, como ontologia do sonho e da esperança (“ontologie du rêve et de l’espérance”), é assim que a qualifica Pierre Boudot (Nietzsche et l’au-dela de la liberté, Paris, 1970); e “A missão da filosofia seria então fazer explodir o tecto de vidro por cima da própria cabeça, a fim de repor o indivíduo numa relação imediata com o monstruoso.”, palavras de Peter Slöterdijk. Apolínea e Dionisíaca, construtora e desconstrutora, mas sempre virada para o futuro. Mais do que um platonismo invertido, como refere num fragmento póstumo de 1871 (“Meine Philosophie umgedrehter Platonismus”. FP 7:7 [156] 1871.), a sua filosofia seria um hegelianismo invertido, o olhar do filósofo, velha figura de Janus, ter-se-ia deslocado da nuca para a face, de trás para a frente.

Desmistificador e profeta, Nietzsche é muitas vezes lido como um Aufklärer romântico, o seu tribunal mede a qualidade do filosofar com dinamite e energia evangélica. Quem quer tanto o futuro deve remover o passado, fazê-lo explodir através de uma força iconoclasta que depois de relativamente domesticada se transformará em método genealógico. Nos dois movimentos, crítica ao passado e construção de futuros, afirma a estrutura essencial da Filosofia. Por isso, como poderia ela passar-se de Nietzsche, lançando-lhe os anátemas de pensador prolixo, contraditório, ideológico, poetizante...?

Mas ao pôr a ênfase no que virá, terminar tão cedo a sua vida intelectual (44 anos apenas) e optar por uma exposição enigmática de muitos dos seus pensamentos fundamentais, abriu o leque das perspectivas hermenêuticas que o poderiam colonizar. Se acrescentarmos a isso todo o trabalho de traição filológica levado a cabo pelo Nietzsche-Archiv de Weimar, inventor, entre outros, do Der Wille zur Macht, então a sua obra parece um caleidoscópio onde cada um vê a cor da sua própria perspectiva. Disso teve ele consciência ao referir no Crepúsculo dos Ídolos, “Máximas e traços”, §15, que “os homens póstumos [posthume Menschen] são menos compreendidos dos que os que vivem com o seu tempo, mas ouvem-se mais. Em rigor, nunca somos compreendidos, é daí que vem a nossa autoridade...”

O sentimento de ser um autor póstumo acompanha-o ao longo de toda a sua vida, podemos destacar, por exemplo, a célebre frase do prefácio do Anticristo: “Alguns nascem póstumos” (Einige Werden posthum geboren), repetida quase ipsis verbis em Ecce Homo, “Porque escrevo livros tão bons”, §1. E ainda os §§ 230 e 269 de Para Além Bem e Mal; da Gaia Ciência 365, 371, 382. E se isto o isenta do veneno psicológico que sempre a frustração liberta em doses generosas; desobriga-o, por outro lado, de tentar fechar, ou pelo menos entre-fechar, algumas portas do seu pensamento de forma a controlar certos excessos da recepção do século XX.

30 de Out de 2009

Leitores Póstumos

Nietzsche citando Stendhal num Fragmento Póstumo de 1888:

"Escrevo para uma dúzia de almas que talvez nunca venha a ver, mas que adoro sem nunca as ter visto."

Ou, do amor por antecipação.

Ou, nos antípodas da lógica mercantil e esteticamente reles do best-seller.

Ou, de como os leitores devem retribuir este amor com uma hermenêutica intensiva.


28 de Out de 2009

Do Mal para o Bem


Hoje de manhã bati no fundo de algo escuro, tinha apenas um pequeno sítio onde me agarrar.

Isso e o resto do tubo de cola do bom senso permitiram-me reganhar a superfície. Aqui sucederam-se as boas notícias, que esperava há vários dias.

Recordei-me, por isso das célebres:

“Os dias terríveis são, afinal, vésperas de dias admiráveis”
(Almada Negreiros, infelizmente sem mais referências)

“Onde, porém, estiver o perigo, aí também se gera o salvífico.”
(Hölderlin, Sämtliche Werke, vol. II, V. F. Beissner, 173.)

27 de Out de 2009

Drem-Team da Filosofia

Serão publicados em língua castelhana as obras — creio que escolhidas — do que se considera, do que Savater e a sua equipa consideram, o dream-team, a expressão é deles, da Filosofia ocidental. A notícia é do El Pais.

Segundo Savater, "Una biblioteca que reúne las obras selectas o completas de, entre otros, Voltaire, Hume, Kant, Séneca, Cicerón, San Agustín, Santo Tomás, Schopenhauer, Spinoza, Kierkegaard, Aristóteles, Ortega y Gasset, Hobbes y Descartes. Los tomos dedicados a Nietzsche y Wittgenstein ("dos estilos muy distintos, y dos básicos ineludibles", afirma Fernando Savater, uno de los colaboradores en el proyecto) son los primeros en salir a la venta." [falta aqui a referência a Platão]

Para meu pequeno prazer, Nietzsche continua a ser um dos Filósofos (bem sei que era necessário discutir esta qualificação) mais lidos em Espanha. Capaz de alimentar o desejo de pensar audaciosamente da juventude (com os anos começa a saber a pouco se não soubermos construir uma filosofia sobre as potências, por vezes elementares, que nos legou).

Para quando, em irmandade com toda a lusofonia, um empreendimento parecido? Obras escolhidas criteriosamente com boas introduções e aparelhos críticos adequados à investigação. No meu caso escolheria: Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, São Tomás, Descartes, Espinosa, Hume, Kant, Hegel, Schopenhauer, Nietzsche, Bergson, Russell, Husserl, Heidegger e Deleuze.

26 de Out de 2009

The Deleuze Connections


John Rajchman consegue neste ensaio de 2000, MIT (traduzido em português por Jorge Pires para a Temas e Debates em 2002), explicar Deleuze sem reduzir a complexidade do seu pensamento a pequenas fórmulas de manual. Este exemplo mostra como é possível uma grande pedagogia em Filosofia, como a interpretação dos monstros sagrados não tem de ser redutora e simplificadora.

Nem todos podem fazer a sua própria Filosofia, o que , aliás, não é o caso de Rajchman, pensador e arquitecto extremamente original. Mas neste mundo do pensamento profundo não devia haver o direito à banalidade. Podemos errar, ou melhor, para seguirmos Deleuze, podemos criar ilusões, mas não reproduzir as pequenas ideias que asseguram longa vida à trivialidade.

25 de Out de 2009

Deus faz o mundo, mas engana-se

“É portanto, verdade que Deus faz o mundo calculando, mas os seus cálculos nunca estão correctos, e é mesmo esta injustiça no resultado, esta irredutível desigualdade, que forma a condição do mundo. O mundo ‘faz-se’ enquanto Deus calcula; não haveria mundo se o cálculo fosse correcto.”
Gilles Deleuze, Différence et répétition (p. 361 da edição da Relógio D'Água, Lisboa)

Que figura estranha esta, como pode um Deus fazer o mundo enganando-se nos cálculos? Claro que assim aceitamos mais facilmente a violência gratuita ou a estupidez humana (redundância), e simultaneamente percebemos melhor o postulado leibniziano de que "Vivemos no melhor dos mundos possíveis".

Por outro lado, desaparece a verdade como adequatio, uma adequação entre os resultados dos cálculos divinos (aqui no mundo empírico) e os cálculos originais de Deus que os formaram.

Mas, num final digno do império ficcional hollywoodesco, temos o grande privilégio de corrigir Deus e fazer deste mundo um lugar melhor para se viver.

23 de Out de 2009

Alta tonalidade

"Instruo-me sem cessar cada vez mais: o que distingue os homens é o tempo mais ou menos longo em que conseguem manter-se numa alta tonalidade da alma. Alguns apenas uma hora, noutros duvidamos que sequer sejam capazes de altas tonalidades. Há aqui algo de fisiológico."

Friedrich Nietzsche, Fragmento Póstumo de 1881, KSA 9, 11 [326]

Hoje estou como uma alta tonalidade de alma, e tudo apontava para o contrário, depois de ontem ter afrontado as forças da maldade burocrática.

22 de Out de 2009

impropérios

“É para todos os pobres diabos um verdadeiro prazer poder proferir injúrias – isso dá uma pequena embriaguez de poder.”

Friedrich Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos, “Divagações de um inactual”, §34.

É nestas fulgurações descritivas de grande psicólogo que Nietzsche se revela um grande pensador.

19 de Out de 2009

Arte e Filosofia


Egon Schiele, Dead Girl, 1910.

Aquilo que as separa é que a Arte não tem de explicar as ideias que fabrica, enquanto a Filosofia gasta aí grande parte do seu exercício de pensar. Por isso, esta última necessita de um método, e é, aliás, na multiplicidade dos percursos explicativos que se fundam as diferentes correntes filosóficas.

Agora devia explicar, para ser coerente, o que é "fabricar uma ideia". Representação ou fulguração, descrição ou efeito, adição ou subtracção... Claro que não se trata das ideias platónicas, elas não eram fabricadas (embora ele tivesse fabricado a ideia que elas não eram fabricadas). Nem de qualquer avatar da fenomenologia transcendental. Uma "ideia" é uma espécie de lance de dados mental, é um experimentação de sentido. Por exemplo, quando digo que a "intriga é uma forma de hermenêutica" estou a experimentar um sentido para a coscuvilhice.

Assim, a Arte é mais julgada pela novidade do acto de fabricar, enquanto a Filosofia pela percurso do acto explicativo, embora de vez em quando necessite de colonizar novos territórios para que a explicação não caia numa escolástica estéril.

18 de Out de 2009

Intriga

A intriga é uma espécie de maldição humana, o reverso em ridículo e malvadez do combate nobre. É o agon dos fracos.

É uma hermenêutica niilista, mas de uma negação que não foi a fundo de si mesma, isto é, ao ponto onde se pode transformar em afirmação. Apenas realça, com lentes de aumento falsificadas, o que pode ser ridicularizado ou censurado moralmente.

É também uma leitura passiva, dirigida para a manutenção do interesse próprio do intérprete. Antes de mais, ele quer sobreviver através da destruição do outro, do seu bom nome(dizendo por exemplo: "afinal sai à noite, não é tão pura como pretende"). O outro é um instrumento na encenação existencial do "intérprete".

Passiva e niilista, a intriga tem, no entanto, um fantástico poder de sedução. Mesmo os que a combatem heroicamente acabam por usar, ainda que apenas num breve tropeção antropológico, a sua força oblíqua.