Que papel ocupa Nietzsche no theatrum philosophicum ocidental? Emérito criador de conceitos, fino negociador de contradições com sentido, polemista consagrado, poeta avassalador, psicólogo turbulento, filólogo iconoclasta... Esteve sempre um passo à frente da modernidade, mesmo durante o idílio de Tribschen.
Em Para Além Bem e Mal, §211, refere-se aos operários da filosofia (philosophischen Arbeiter), cujos modelos são Kant e Hegel, como iluminadores de tudo o que existiu até eles. A filosofia estaria, pois, alienada no espírito da Ave de Minerva, repórter do que aconteceu. Pelo contrário, “os verdadeiros filósofos são comandantes e legisladores” (Die eigentlichen Philosophen aber sind Befehlende und Gesetzgeber). É verdade que não descuram todo o trabalho de pensamento anterior ao deles, mas o passado filosófico só serve como meio, como instrumento para “agarrarem o futuro com uma mão criadora”, para fazerem da sua vontade de verdade uma vontade de potência (Wille zur Wahrheit ist – Wille zur Macht). Para Além Bem e Mal, com o subtítulo “Prelúdio a uma filosofia do futuro” (“Vorspiel einer Philosophie der Zunkunft”) contém muitos fragmentos dedicados à filosofia, da nova e da antiga filosofia: §2, 9, 39, 42, 43, 292. Mas já em Aurora, §544, tinha lançado a suspeita sobre os filósofos recolectores. Por outro lado, A Genealogia da Moral, por exemplo nos livros I e III, §17 e 8 respectivamente, continua a ideia do filósofo legislador, criador mais do que agrimensor, desejoso de experimentar mais do que de esclarecer, de criar do que de representar. Por isso, a ideia de filósofo construtor de experiências de futuro acompanha Friedrich Nietzsche durante grande parte da sua carreira de espírito livre.
Dois receptores complementam-se quando designam a filosofia de Nietzsche, respectivamente, como ontologia do sonho e da esperança (“ontologie du rêve et de l’espérance”), é assim que a qualifica Pierre Boudot (Nietzsche et l’au-dela de la liberté, Paris, 1970); e “A missão da filosofia seria então fazer explodir o tecto de vidro por cima da própria cabeça, a fim de repor o indivíduo numa relação imediata com o monstruoso.”, palavras de Peter Slöterdijk. Apolínea e Dionisíaca, construtora e desconstrutora, mas sempre virada para o futuro. Mais do que um platonismo invertido, como refere num fragmento póstumo de 1871 (“Meine Philosophie umgedrehter Platonismus”. FP 7:7 [156] 1871.), a sua filosofia seria um hegelianismo invertido, o olhar do filósofo, velha figura de Janus, ter-se-ia deslocado da nuca para a face, de trás para a frente.
Desmistificador e profeta, Nietzsche é muitas vezes lido como um Aufklärer romântico, o seu tribunal mede a qualidade do filosofar com dinamite e energia evangélica. Quem quer tanto o futuro deve remover o passado, fazê-lo explodir através de uma força iconoclasta que depois de relativamente domesticada se transformará em método genealógico. Nos dois movimentos, crítica ao passado e construção de futuros, afirma a estrutura essencial da Filosofia. Por isso, como poderia ela passar-se de Nietzsche, lançando-lhe os anátemas de pensador prolixo, contraditório, ideológico, poetizante...?
Mas ao pôr a ênfase no que virá, terminar tão cedo a sua vida intelectual (44 anos apenas) e optar por uma exposição enigmática de muitos dos seus pensamentos fundamentais, abriu o leque das perspectivas hermenêuticas que o poderiam colonizar. Se acrescentarmos a isso todo o trabalho de traição filológica levado a cabo pelo Nietzsche-Archiv de Weimar, inventor, entre outros, do Der Wille zur Macht, então a sua obra parece um caleidoscópio onde cada um vê a cor da sua própria perspectiva. Disso teve ele consciência ao referir no Crepúsculo dos Ídolos, “Máximas e traços”, §15, que “os homens póstumos [posthume Menschen] são menos compreendidos dos que os que vivem com o seu tempo, mas ouvem-se mais. Em rigor, nunca somos compreendidos, é daí que vem a nossa autoridade...”
O sentimento de ser um autor póstumo acompanha-o ao longo de toda a sua vida, podemos destacar, por exemplo, a célebre frase do prefácio do Anticristo: “Alguns nascem póstumos” (Einige Werden posthum geboren), repetida quase ipsis verbis em Ecce Homo, “Porque escrevo livros tão bons”, §1. E ainda os §§ 230 e 269 de Para Além Bem e Mal; da Gaia Ciência 365, 371, 382. E se isto o isenta do veneno psicológico que sempre a frustração liberta em doses generosas; desobriga-o, por outro lado, de tentar fechar, ou pelo menos entre-fechar, algumas portas do seu pensamento de forma a controlar certos excessos da recepção do século XX.